domingo, 29 de maio de 2011

Mundo quebrado

   Os animais me fascinam. Seus movimentos, suas formas e cores, seus olhos, que me dizem tanta coisa sem palavras. Ao observá-los uma paz me envolve, uma percepção do incognocível me toca, como se ouvisse a mais linda sinfonia. Como se sentisse a alma do Artista. Sou levada instantaneamente a pensar n'Ele e em como talvez a intenção d'Ele ao criá-los e ao nos criar, fosse totalmente oposta ao que meus olhos vêem. E uma tristeza me acomete ao ver o mundo como está, onde seres criados para liberdade, ficam presos em jaulas e condenados, por falta de opção, a uma vida reclusa, apenas suprindo a vaidade e o desejo de saber de tudo do ser humano. Ou aqueles que mesmo livres, sofrem e se extinguem por ações egoístas dos homens. 
      Tenho certeza que algo está quebrado. Que não pode ter sido feito para ser assim. Porque está assim eu não sei, e nem tenho como saber, e talvez nem precise saber. Mas que algo está quebrado, isso eu sei. Eu sinto. Sinto saudade de coisas que nunca vi. Sinto que esse lugar, desse jeito que está, não me cabe. Como se não estivesse vendo uma coisa que fui feita para ver, mas que está lá. Algo me cega. 
     Quando penso na criação, imagino que o mundo tenha sido feito completo, mas agora está repartido. Repartido em duas partes. O real e o ilusório. O ilusório é este, o material. O real é o que não podemos ver. Como se eu estivesse presa num sonho, daqueles meio malucos e embaçados, que passam meio rápido, e quando a gente acorda nem consegue dizer direito o que aconteceu nele. Eu também nem sei dizer se é um sonho ou um pesadelo, há elementos bons e elementos ruins. Mas a pior coisa é a sensação de não poder acordar. Porque eu sinto que quando "acordar" verei que era só um sonho, e que o mundo acordado é muito melhor, porque é real e é onde o Artista está, e eu fui feita para conviver com Ele.
       Imagino que homem e Deus tinham plena liberdade um com outro. Imagino caminhadas juntos e trocas de ideias sobre o que fazer aqui ou alí. Imagino piadas, sorrisos, música, poesia e amor. Também imagino que algo muito triste aconteceu e quebrou isso. Algo que foi fruto de inveja, curiosidade e vaidade. A vaidade desde sempre tem sido o pior defeito do ser humano. Um mundo foi oferecido ao homem, um mundo em que ele poderia tomar as decisões sozinho e poderia dominar tudo. E ele aceitou. Um contrato foi feito, e pronto, o mundo criado foi entregue e separado então do mundo que já existia. Um não interviria mais no mundo do outro. Estava no contrato. Mas ainda bem que uma das cláusulas desse contrato dizia que o homem não viveria assim por muito tempo, Deus foi esperto, e deixou que o homem voltasse pra ele depois de algum tempo no mundo irreal, no mundo fugaz, separado. Criou a morte, que então acordaria o homem e este não estaria mais enganado sofrendo pela própria falta d'Ele.
       Mas só isso não foi suficiente pro Artista. Ele sentiu muita falta de estar com o homem. Com cada um deles. E precisava entender como era a vida do homem no mundo separado, porque não aguentava ver o homem sucumbir nesse mundo quebrado que não estava conseguindo governar. Uma dor enorme o acometia de saudade e de compaixão pelo sofrimento. Precisou fazer alguma coisa. Foi aí que Ele decidiu burlar o contrato que o próprio homem pediu. Como? Se tornando homem. Vindo para a dimensão quebrada Ele mesmo. Pra ficar com o homem. Ele saiu da sua dimensão majestosa e perfeita, real, e veio para essa quebrada. Ele trocou a capa de Rei, a coroa e o cetro, por roupas simples, sandálias sujas e terra embaixo das unhas. Tudo isso para ficar com o homem. Como homem. Para que o homem pudesse ser amigo Dele de novo, e pudesse se reconciliar com Ele, vendo Nele a sua própria imagem.
      Como homem Ele escolheu experimentar todo o sofrimento que um legítimo homem pode passar. Até, quem sabe, mais. Só para que na época os homens se identificassem com Ele, e para que os homens que viessem depois também se identificassem ao ouvirem a Sua história. 
       Imagino que quando esteve aqui, seu coração doía ao ver seus queridos filhos sofrerem, tentou fazer o máximo que podia para aliviar o sofrimento deles, curando doentes de corpo e de alma. Ensinando os seus filhos a viverem uma vida de forma mais proveitosa. Ensinando-os a amar. Porque amando estariam perto Dele. E estando aqui amou, e amou até o fim. E ama até hoje. Porque Ele morreu, morreu, porque enfim, todo homem morre. Mas ressuscitou porque era Deus, e Deus não morre. Ele continua sendo homem, e como homem lembra de como é viver no mundo quebrado, e ser limitado e frustrado. Ele entende a nossa fome, a nossa sede, a nossa alegria e a nossa tristeza. E entende a nossa morte.
       Eu agora espero ansiosa pelo dia da colisão dos mundos. Espero ansiosa pelo dia em que eu vou acordar desse sonho e poder conviver com Ele de fato, sem dúvidas, e sem restrições. Anseio pelo dia em que tudo será respondido e que não haverá mais lágrimas. Enquanto isso, faço o que posso para seguir os passos que Ele deixou, só para poder ficar o mais perto possível Dele aqui. Enquanto isso tento, mesmo que dificilmente consiga, amar como Ele ensinou.


      

sexta-feira, 20 de maio de 2011

suspirar

suspiro porque fico sem fôlego
fico sem fôlego quando alguma coisa excitante acontece
fico sem fôlego quando alguma coisa triste me acomete
frequentemente o suspiro vem pra não chorar
as vezes vem durante o choro
parece que tem um planeta em cima do meu peito
e pensamentos apertando meu pescoço 
mas aí eu paro, inspiro fundo e expiro devagar
lento, profundo e involuntário
que parece que me diz:
-apenas respire e continue andando

quarta-feira, 11 de maio de 2011

como espero...

mais um murro a vida dá no estômago
não podia ser mais fácil viver não?
não dava pra passar pela vida sem se machucar, ou sem machucar ninguém?

espero que tenha sentido
oh, Deus, como espero que tenha sentido!

terça-feira, 10 de maio de 2011

mais um

eis aqui
nada de especial
apenas mais um grito silencioso
num universo barulhento
mais um som que não é propagado no espaço
mais um sussurro ao vento
contra o vento
saindo da boca
e batendo no próprio rosto de quem sopra